Logo
7 jun 2021

Tia Ciata a Mãe do Samba

Post by Geisa Barreto

Baiana mãe baiana

É belo teu pedestal

Eu te adoro e te adorando imploro

Teu carinho maternal

Tia Ciata, mãe amor

O teu seio o samba alimentou

E a baiana se glorificou…

 Trecho do samba Mãe Baiana Mãe

Talvez você já tenha ouvido o samba “Mãe Baiana Mãe” enredo da Império Serrano de 1983, que levou a Marquês de Sapucaí uma homenagem as Tias baianas do samba e a mais famosa delas Tia Ciata considerada por muitos a matriarca do samba.

Nascida em 13/01/1854 em Santo Amaro da purificação no Recôncavo baiano Hilária Batista de Almeida foi a mais famosa das tias baianas do Rio de Janeiro. Ainda jovem aos 16 anos participou da fundação da irmandade da boa morte em Cachoeira, outra cidade do Recôncavo baiano. Filha de Oxum foi iniciada no Santo na casa de Bambochê da nação Ketu.

Tia Ciata – mundonegro.inf.org

No Rio de Janeiro

Aos 22 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, fugindo das perseguições policiais ao Candomblé na Bahia, no êxodo que ficou conhecido como diáspora baiana. Conheceu Norberto da Rocha Guimarães, com quem teve sua primeira filha, Isabel, o relacionamento não foi adiante. Solteira e com uma filha para criar, tia Ciata começou a vender doces, estabelecendo-se com tabuleiro na esquina das ruas Sete de Setembro e Uruguaiana. Ciata (a quem se chama ora Asseata, ora Asseiata), chamava a atenção pelo trajar. Vestindo “saia bordada a ouro ou seda, sandália acompanhando o bordado da saia”, era admirada por outras baianas. Isto fez com que, mais adiante, Ciata ampliasse seu campo de atuação, primeiro alugando roupas como as suas para outras baianas de tabuleiro, vindo depois a manter uma equipe de vendedoras de doces a seu serviço nas esquinas do Centro.

Casou-se depois com João Baptista da Silva, funcionário público, com quem teve 14 filhos, relacionamento que foi fundamental para a sua afirmação na Pequena África, como era conhecida a área da Praça Onze nesta época. Morando na Visconde de Itáuna entre 1899 e 1924.  

Aecio – Tabuleiro da Baiana

Religiosidade

Na casa de João do Alabá no Rio de Janeiro, era Iyá Kekerê (Mãe Pequena), responsável pelas obrigações feitas no santo, pela instrução sobre as oferendas propiciatórias que cada um devia fazer à medida que avançasse no culto, influindo sobre as questões espirituais e materiais dos fiéis. Como mãe- pequena era a auxiliar direta do pai ou da mãe-de-santo que liderava o candomblé no contato com as noviças, a quem prescrevia os banhos rituais (principalmente quando o chefe, como Alabá, é homem) e dirigia as iaôs, já iniciadas, nas danças dos orixás. A Iyá Kekerê usava o adjá, um instrumento próximo da sineta que marca situações cerimoniais, e propicia ou mantém o transe dos cavalos possuídos dos orixás.

Festas

O casarão da Visconde de Itaúna na Praça Onze onde morava, era uma autêntica casa de cômodos, com 6 quartos, 2 salas, 2 banheiros, um longo corredor e um quintal com árvores. Era lá que Tia Ciata festeira comemorava as festas dos orixás. Principalmente as festas de Cosme e Damião e Nossa Senhora da Conceição, a festa de Oxum.

Depois de assistirem as cerimônias religiosas igreja, aconteciam as festas dedicadas aos orixás, e após estas, os músicos e capoeiras amigos armavam o pagode.  Mas não tinham só festas para os santos, ela gostava de comemorar tudo e era perita no miudinho, forma de sambar com os pés juntos. Partideira respeitada Tia Ciata não deixava o samba morrer. Providenciava que as panelas estivessem sempre quentes.

Sua casa era frequentada por outras tias baianas famosas na época, que também eram filhas de Santo de João de Alabá como tia Dadá, tia Amélia (mãe de Donga), tia Prisciliana (mãe de João da Baiana), tia Veridiana (mãe de Chico da Baiana), tia Josefa Rica e tia Tomásia.  Além de importantes nomes da música popular como Donga, João da baiana, Pixinguinha, Sinhô, Heitor dos Prazeres, Catulo da Paixão Cearense entre outros.

Pixinguinha, João da Baiana e Donga – sambacarioca.com.br

Um dos primeiros registros do samba Pelo Telefone, de autoria de Donga e Mauro de Almeida, foi composto durante uma das famosas reuniões na casa de Tia Ciata, entre o final de 1916 e o começo de 1917. Os sambas na casa de Ciata eram importantes, porque, em geral os sambas nasciam no alto do morro, mas era na casa dela é que se tornavam conhecidos da roda. Lá é que eles se popularizavam, lá é que eles sofriam a crítica dos catedráticos, com a presença das sumidades do violão, do cavaquinho, do pandeiro, do reco-reco e do atabaque.

A cura de Venceslau Brás

Curandeira afamada foi chamada ao Palácio do Catete para tratar de uma ferida do presidente Venceslau Brás, que resistia a todos os tratamentos indicados pelos médicos. Tia Ciata disse haver cura para a tal ferida e recomendou a Venceslau Bráz que lavasse a perna com sabão e que fizesse uma pasta com ervas que deveria ser colocada na ferida por três dias seguidos. O Presidente ficou curado e em troca ofereceu a realização de qualquer pedido. Ciata pediu um emprego para o seu marido João Batista que tinha estudado até o segundo ano de medicina na Bahia, sendo assim transferido da Imprensa Nacional para a chefia de gabinete do chefe de Polícia. Durante o mandato de Venceslau Brás (1914-18), as festas na casa de tia Ciata eram autorizadas, contando com o envio de dois soldados que iam fazer a segurança.

Quando seu marido, João Batista da Silva, faleceu, Tia Ciata já era considerada uma autoridade e uma estrela no meio do samba carioca. Ela era mais respeitada e popular do que muitas personalidades negras da época. Todo o ano, durante o Carnaval, ela armava uma barraca na Praça Onze, onde eram lançadas as marchinhas, que ficariam famosas no Carnaval da cidade.

Tia Ciata morreu em 1924, na cidade do Rio de Janeiro.

Tags: , , ,
Carioca, graduada em Comércio Exterior, guia de turismo desde 2017, louca pelo Rio, sua história, natureza e fotografia.

COMENTÁRIOS

Wander Alcantelado 19/06/2021 at 11:36 - Responder

Que história maravilhosa !!! Deu até saudade daquele Rio que passou. Precisamos de mais “Tias Ciatas”.

Rose Rondon 19/06/2021 at 09:56 - Responder

Excelente matéria!

Rose Rondon 19/06/2021 at 09:56 - Responder

Excelente matéria!

Beatriz Coimbra 18/06/2021 at 22:26 - Responder

O Rio de Janeiro é uma cidade realmente única. Muito bom saber um pouco mais da vida das pessoas que fizeram a história dessa cidade incrível.

Deixe um comentário