Logo
REDESCOBRINDO MONUMENTOS DO RIO (PARTE II)
18 maio 2021

REDESCOBRINDO MONUMENTOS DO RIO (PARTE II)

Post by Pedro Cipiniuk

Bem-vindos de volta caro navegador, quem vos fala é o Pedro e hoje é dia de história. Dando continuidade ao nosso passeio pela Urca, em busca de prédios antigos que marcaram nossa história e monumentos que nos lembram de algo que aconteceu no passado.

Confira a parte I aqui.

O Monumento aos mortos da Retirada da Laguna. (Crédito da imagem: Wikipédia)

Urca

               Hoje falaremos de outro monumento da Praça General Tibúrcio, aquela praça ao lado da entrada do Bondinho do Pão de Açúcar. Bem na frente da praça há um longo espelho de água com o esplendoroso Monumento aos Mortos da Retirada de Laguna. Sua base é repleta de altos relevos de bronze, para quem não sabe, alto-relevo é estilo de escultura que parece sair da parede. Três estátuas se destacam erguendo no meio uma coluna branca e em seu topo um homem seminu alado. O que significa isso? É do Santos Dumont?! Não caro navegador, se trata de uma batalha que ocorreu na Guerra do Paraguai (1865-1870), sendo o conflito mais sangrento que o Brasil já participou com mais 100.000 brasileiros mortos. Ok, um monumento de guerra, mas porque tem um homem-pássaro? Trata-se de uma alegoria, a figura no topo é a Glória.

Uniformes do exército brasileiro durante a Guerra do Paraguai. (Fonte da imagem: https: journals.openedition.orgterrabrasilis1908-1-1)

               Mas o que a Glória está fazendo em um monumento da Guerra do Paraguai? Calma navegador, eu chegarei lá. Acontece que ela protege de um dos episódios mas difíceis do exército brasileiro, quando planejou uma ambiciosa invasão ao Paraguai feita por terra e que acabou em um tremendo desastre.  A expedição militar foi organizada no Rio de Janeiro, após a invasão do Mato Grosso pelo exército paraguaio em dezembro de 1864. As tropas teriam que cruzar mais de 1600 quilômetros de mata fechada e umas poucas estradas de terra. Para que o navegador tenha noção do tamanho desta empreitada na época, uma diligência que saía do centro do Rio até Copacabana (onde hoje fica a rua Siqueira Campos) demorava um dia inteiro! Imagine cruzar o Brasil de leste a oeste, saindo do Rio até o Paraguai, sem carro com ar-condicionado e estradas pavimentadas.    

Guerra do Paraguai

A expedição foi liderada pelo coronel Carlos de Morais Camisão, juntamente com um corpo de engenheiros militares. Ela saiu do Rio de Janeiro em abril de 1865 rumo à Laguna, atual Bela Vista do Norte, a força totalizou mais de 3.000 homens. E só chegaram no município de Miranda no Mato Grosso do Sul, 250 quilômetros ao norte de seu objetivo em setembro de 1866, mais de um ano depois. A coluna foi dizimada no caminho por diversas doenças como a cólera e o tifo. Quando finalmente chegaram na fronteira do Paraguai em abril de 1868, só havia 1680 homens.

A expedição neste momento se encontrou com a falta de suprimentos e muito longe de qualquer estrada ou rio navegável para facilitar o reabastecimento. Diante desta situação o comandante Camisão ordenou a retirada, e durante o retorno para casa as tropas brasileiras foram emboscadas pela cavalaria paraguaia em diversas ocasiões. O Coronel Camisão faleceu no caminho, vítima de cólera, sendo substituído por outro oficial. No final, só sobraram 700 homens quando chegaram a um porto fluvial em Anastácio, MS em 11 de junho de 1867, foram dois anos ao total no inverno verde.

Cavalaria paraguaia (fonte da imagem: http: soutraspalavras.nethistoria-e-memoriaas-feridas-da-guerra-com-paraguai-ainda-latejam)

O monumento

O projeto para a construção do monumento se iniciou em 1920 por iniciativa do professor de história militar e capitão do exército Pedro Cordolino de Azevedo da Escola Militar de Realengo. As esculturas foram feitas de bronze pela fundição Covina & Cia, sua autoria é do premiado professor José Otávio Correia Lima. Trata-se de uma coluna feita de mármore branco de 15 metros de altura sob uma base esférica de 53 metros de circunferência, onde ficam altos-relevos de bronze com cenas da retirada das tropas brasileiras na selva. Há a imagem de dois gados magros puxando canhões, e no lado oposto há soldados carregando seus camaradas adoecidos.

De frente ao espelho de água se apresenta de forma dramática o tenente Antônio João sendo alvejado e congelado no tempo, ao seu lado direito se encontra o Coronel Camisão sentado e pensativo. Do lado esquerdo do tenente alvejado, o guia Lopes se encontra na mesma posição e com a mesma expressão que o coronel Camisão. Na parte de trás do monumento se encontra uma escada para o subterrâneo onde fica a cripta do tenente Antônio João. Toda a composição fica entre os prédios do Instituto Militar de Engenharia (IME) de frente para a Praia Vermelha. No coração da praça General Tibúrcio arborizada por amendoeiras tendo ao fundo o azul do céu se confundindo com o azul do mar. O monumento foi inaugurado em 31 de dezembro de 1938 com a presença do presidente Getúlio Vargas, o escultor da obra havia falecido pouco antes.

O coronel Camisão (fonte da imagem: http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com/2012/03/o-monumento-aos-herois-de-laguna-e.html)

Monumentos transmitem símbolos

Os monumentos estão esquecidos em nossas praças, não há interesse geral em ter um olhar diferente, com a curiosidade de uma criança. O navegador pode se surpreender. Mas há mais do que simplesmente lembrança de um fato, há conexões com o momento de sua construção e daquilo que querem homenagear. Porque os monumentos transmitem símbolos que são silenciosos, porém poderosos, ocultando algo que cause incomodo e por isso que deve ser apagado. Da mesma forma, há aquilo que desperta orgulho e deve ser exposto e exaltado. O Monumento aos Mortos da Retirada da Laguna não escapa a essa regra, pois oculta o local onde ficava o quartel do 3º Regimento de infantaria, que havia se amotinado e participado no Levante comunista três anos antes da inauguração. A ideia de exaltar a retirada é antiga, mas o local onde colocar é posterior a sua concepção.

Quem tiver mais interesse sobre o assunto recomenda a leitura do livro “História da Retirada da Laguna” escrito pelo Visconde de Taunay.

(Fonte da imagem: http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com/2012/03/o-monumento-aos-herois-de-laguna-e.html)
O guia da expedição (Fonte da Imagem: http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com/2012/03/o-monumento-aos-herois-de-laguna-e.html)
Tags: , , , ,
Meu nome é Pedro Henrique, tenho 35 anos. Sou carioca da gema, flamenguista e guia de turismo apaixonado pela história desta cidade complexa, cosmopolita e inebriante que é o Rio de Janeiro. Formado em história, tenho como missão mostrar a riqueza cultural e artística da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Busco sempre tornar a transmissão de conhecimento de uma forma leve e divertida.

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário