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BioParque do Rio de Janeiro, uma nova maneira de pensar o zoológico
17 ago 2021

BioParque do Rio de Janeiro, uma nova maneira de pensar o zoológico

Post by Monica Bertazzolo

O antigo Zoológico na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro a partir de março de 2021 vestiu uma nova roupagem e se transformou num bioparque. Se no passado, a diversão justificava a criação dos primeiros zoológicos, hoje a realidade é diferente. O novo conceito de bioparque além do lazer, envolve a pesquisa, a conservação (tutelando para que espécies não se extingam) e a educação. Mas o que mudou, e sobretudo qual a história que levou os homens a manterem animais em cativeiro?

Portal de entrada do BioParque. Arquitetura do século XIX, branco com detalhes beges.
Portal do século XIX de acesso ao BioParque. Fonte:bioparquedorio.com.br

Nas antigas civilizações

A relação dos homens com os animais vem da pré-história e encontramos muitos registros em pinturas rupestres. Muitas vezes eles eram reverenciados pelas suas qualidades e eram vistos como sagrados. Antigamente muitas tribos tinham seus animais totêmicos.

Pinturas rupestres no Parque Nacional da Serra da Capivara.
Pinturas rupestres no Parque Nacional da Serra da Capivara. Fonte: super.abril.com.br

Portanto o homem tem mantido animais selvagens em cativeiros há milhares de anos. O hábito de estabelecer “zoológicos privados” foi comum em todas as cortes das primeiras civilizações como na China, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma. De lá se espalhou para o ocidente o hábito de se ter animais exóticos nos jardins das propriedades das classes mais abastadas e poderosas, como forma de enaltecer seu poderio e autoridade.   

As coleções particulares conhecidas como ‘ménageries’

Já na Idade Média, diversos soberanos na Europa mantiveram coleções de animais em suas cortes reais. O termo Ménagerie (lê-se “menagerri”), é uma palavra francesa para designar uma coleção particular de animais vivos em cativeiro, podendo ser considerado o predecessor dos jardins zoológicos modernos. O termo foi usado pela primeira vez no século XVII na França como referência a coleção localizada no Palácio de Versalhes. Porém estes estabelecimentos se distinguiam dos primeiros zoológicos pois eles não eram dedicados à visitação do grande público, mas sim fundados e mantidos por aristocratas para fins privados. Assim, os objetivos não eram primariamente científicas ou educacionais, mas sim um modo para celebrar o próprio poder político e influência econômica.

Ménagerie de Versalhes. Fonte: http://rodama1789.blogspot.com

O primeiro zoológico no mundo

O Jardim Zoológico de Schönbrunn, localizado no Palácio de Schonbrunn, em Viena na Áustria, foi fundado como ménagerie imperial em 1752. O modelo seguia o exemplo da coleção do Palácio de Versalhes na França. Inicialmente a frequentação era exclusiva para a família real e membros da corte, além de diplomatas e convidados privados. A abertura ao público (para “as pessoas decentemente vestidas”) ocorreu em 1779, sendo considerado, portanto o zoológico mais antigo do mundo.

Imagem em desenho do Jardim Zoológico de Schöbrunn. Adultos e crianças admirando os animais enjaulados.
Jardim Zoológico de Schöbrunn. Fonte: www.tiqets.com

Evolução: das jaulas aos bioparques

Se os atuais zoológicos podem ser considerados como uma continuidade histórica das antigas ménageries reais da Europa, podemos dizer que também no conceito de exposição das feras algo mudou com o passar do tempo. Antigamente nas ménageries os animais eram enjaulados. O bem-estar deles não era prioridade. Eram espaços pequenos e gradeados.

Imagem em desenho de pequeno grupo de pessoas admirando as jaulas dos animais: leão, tigre, macacos, elefante e aves.
A Royal Menagerie de Londres. Fonte: theguardian.com

A primeira mudança ocorre em 1907 no Jardim Zoológico de Hamburg (Alemanha) graças a Carl Hagenbeck quem vai ser o primeiro a usar recintos abertos cercados por fossos em vez de grades, revolucionando o conceito de zoológico.

Tierpark Hagenbeck em Amburgo. Fonte: cometohamburg.com

Mas é na década de 1970, no Woodland Park Zoo de Seattle (USA) que nasce o conceito de imersão na paisagem. A primeira experiência foi feita para a exibição de gorilas onde o recinto recebeu um tratamento para recriar o habitat natural destas espécies. O pioneiro foi David Hancocks, um arquiteto e designer britânico de zoológicos e parques naturais. Os arquitetos paisagistas contribuíram a transformar as primitivas características dos zoológicos. O último avanço se deu na implantação dos Bioparques que enfatizam seus novos compromissos com a conservação, educação e pesquisa das espécies que apresentam.

David Hancock posando para foto em frente à uma grade baixa separando a plantação com um macaco na árvore e a área para passeio de pessoas.
David Hancock no Woodland Park Zoo de Seattle. Fonte: zooshare.ca

Primeiro zoológico do Rio de Janeiro

O primeiro jardim zoológico aberto ao público foi fundado em 1888, no bairro de Vila Isabel, pelo Barão João Batista de Vianna Drummond. Inicialmente a instituição recebia uma ajuda financeira do Império. Mas com a entrada no novo regime, sem o apoio do imperador, o barão de Drummond precisou aumentar a renda do estabelecimento. Foi assim que criou o jogo do bicho. Ao comprar o ingresso de entrada para o Jardim Zoológico, o visitante passaria a receber um ticket. No bilhete estaria impressa a figura de um animal e no fim da tarde, quem tivesse o animal sorteado iria ganhar vinte vezes o valor pago do ingresso. Inútil dizer que foi um sucesso.

Ilustração sobre o Zoológico de Vila Isabel: longo caminho para pedestres envolto por plantas e árvores e pequenas jaulas com animais presos para exposição.
Zoológico de Vila Isabel. Fonte: diariodorio.com

Com o tempo o jogo do bicho ganhou vida própria e ainda hoje tem seus seguidores, mas não mais vinculado ao Zoo do barão. O qual, já nos primeiros anos do século XX se torna pequeno demais para os inúmeros espécimes animais que não cessavam de chegar. Foi assim que se decidiu a sua transferência para a Quinta da Boa Vista, o que se efetivou em 1945.

O BioParque hoje

O Ibama vinha encontrando irregularidades no Zoológico do Rio desde 2012. A partir de 2016 o Grupo Catarata ganha a concessão da Prefeitura para a gestão e operação do Rio Zoo. O último capítulo desta nossa história começa então em março deste ano quando o novo Bioparque foi inaugurado.

Espaços novos foram projetados para simular o habitat natural dos animais e os recintos foram ampliados. Estão expostos cerca de 1.000 animais de 140 espécies divididos em 13 ambientes temáticos com 52 recintos. O percurso é circular e alguns recintos são de imersão como o dos psitacídeos dos quais fazem parte as araras, as maritacas, a ararajuba dentre outros papagaios. Este espaço é conhecido como o ‘viveirão’, onde o visitante passeia dentro de um grande espaço envolto nos voos coloridos das aras. Além dos pássaros, os animais que mais ganharam em liberdade foram os primatas e a elefanta Koala que teve seu espaço quase que decuplicado.

Vista aérea do atual BioParque do Rio. Área marcada pela presença verde, com gramado e árvores. No centro tem a ponte em zigzag no setor Savana Africana que passa por cima de um Rio contornando parte da área destinada aos animais.
Vista aérea do BioParque. Fonte: g1.globo.com

Mas vejo que tenho ainda outras curiosidades para contar. Portanto, confira neste post mais informações que vão te deixar com aquela vontade de correr para visitar o Bioparque!

Para saber mais:

“A Fuga dos bichos ou A origem da loteria mais popular do Brasil”. Felipe Magalhães, Professor adjunto da UNEB.

“A Different Nature: The Paradoxical World of Zoos and Their Uncertain Future”. David Hancock

*Visite o BioParque e o AquaRio com o passeio Rio Animal Tour. Clique aqui.

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Sou descendente de italianos e sou doutora na Itália em Línguas e Literaturas Estrangeiras. O Rio de Janeiro é uma cidade multifacetada, uma combinação de culturas, paisagens, história e arquitetura. Revelar seus diferentes ângulos é o que me proponho como guia de turismo. Vamos descobri-lo juntos!

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