Logo
Os azulejos do Instituto Moreira Salles (RJ) Arte e arquitetura num lugar só
26 jul 2021

Os azulejos do Instituto Moreira Salles (RJ) Arte e arquitetura num lugar só

Post by Monica Bertazzolo

A casa no Alto da Gávea onde viveram o embaixador Walther Moreira Salles e sua família, se tornou em 1999 a sede do Instituto Moreira Salles. Com um acervo extenso abrangendo os campos fotográfico, literário e musical, o local é visitado pelas suas exposições. Porém, o que leva muitos visitantes até lá, é a própria arquitetura da casa e o projeto de seu jardim, que traz a assinatura de Burle Marx.

Painel de azulejos no jardim. Fonte: Vitruvius.com

O projeto do arquiteto Olavo Redig de Campos

Num comentário do arquiteto franco suíço Le Corbusier a respeito do seu projeto da Villa La Roche em Paris de 1925, ele registra o conceito de “promenade architecturale”. Ele escreve que esta residência será um pouco como um passeio arquitetônico: “a boa arquitetura ‘se caminha’ e ‘se percorre’ pelo interior e exterior. É a arquitetura viva”. 

Assim como na Villa de Le Corbusier, na casa projetada pelo arquiteto Olavo Redig de Campos em 1951 para Moreira Salles, advertimos um efeito próximo daquilo que Le Corbusier definiu como uma “arquitetura para ser percorrida”. O sistema de circulação, dado por rampas, acessos, corredores, foi abordado como definidor e estruturador da própria arquitetura, estimulando estratégias projetuais próprias. Olavo Redig se formou na Universidade de Roma e algumas de suas escolhas estéticas foram influenciadas por seus estudos na Itália.

Fachada com pórtico de acesso a casa. Fonte: IMS

Seu projeto nos surpreende desde o acesso.  Mesmo sendo uma construção moderna, logo na entrada principal da casa somos acolhidos por um pórtico de gosto clássico. Duas altas colunas de mármore branco contrastam com a parede ao fundo, pintada em tom vermelho terroso, inspirado no “rosso pompeiano”. Aquele vermelho tão especifico dos afrescos de Pompéia, cidade do antigo Império Romano que ficou submersa pelas cinzas da erupção do vulcão Vesúvio até ser reencontrada por acaso no sec. XVIII.

Afrescos ‘Villa dei Misteri’ em Pompéia. Fonte: IvanoIannelli

Internamente a casa é organizada em torno de um pátio central. Novamente advertimos uma referência as “domus” da antiga Roma. Para seus quatro lados foram pensadas soluções diferentes. A ala referente a parte íntima da casa tem sua fachada protegida por quebra-sóis, para isolá-la dos olhares externos. Já nos dois lados destinados a área social, paredes envidraçadas permitem a entrada da luz e ao mesmo tempo possibilitam a vista para o pátio. O último quarto lado deste pátio trapezoidal se abre para o jardim com piscina. A passagem para esta área é coberta por uma marquise ondulada, elemento curvilíneo tão presente na arquitetura moderna brasileira.

Pátio interno com as várias soluções de vedação. Fonte: IMS

O Jardim de Burle Marx

O jardim foi projetado por Burle Marx. Este artista poliédrico é geralmente conhecido pelo seu valor como paisagista, mas além de trabalhar com plantas, era escultor, pintor, realizava tapeçarias e azulejos, poliglota e ótimo cozinheiro! A grande revolução que ele operou desde o início de sua carreira como projetista de jardins, foi de livrá-los do “cunho europeu”, e trouxe para as praças e para os parques particulares, a antes desprezada vegetação nativa.

O paisagista Roberto Burle Marx. Fonte: OGlobo

Para o jardim da casa, a escolha caiu em plantas não volumosas, criando ilhas de vegetação rasteira sem ocupar demais o espaço. A árvore de “pau-mulato” foi introduzida como um artificio para forçar o olho do visitante para o alto, levando-o a olhar também para as matas e os morros circundantes.

O Jardim assinado por Burle Marx. Fonte: IMS

Outro elemento palpável desta criação é a água, que aparece na fonte do pátio, na piscina e no espelho d’água onde um mural de azulejos pintados pelo paisagista acrescenta valor ao todo. Este espaço aquático, situado entre a sala de jantar e a piscina funciona não apenas como regulador climático, mas como objeto de prazer.

A piscina. Fonte: WordPress.com

As Lavadeiras de Burle Marx

O painel de azulejos, representando lavadeiras, dá mais uma nota vernacular ao projeto. A casa pensada para um embaixador, para um representante diplomático do Brasil no exterior, não podia deixar de expressar em seus espaços um toque das tradições culturais brasileiras e de seu povo. As figuras populares de lavadeiras acabam se tornando por sua vez as embaixatrizes desta brasilidade. Elas são história viva, uma homenagem às mulheres que desde o século XIX faziam “lavagem de ganho”.

Este painel criado em 1949 apresenta um diálogo entre as formas abstratas que são o pano de fundo da pintura e as figuras femininas e os peixes que foram retratados. As cores branco e azul dos azulejos são uma referência a azulejaria portuguesa do século XVIII. As peças foram produzidas pelo Atelier Osirarte de Paolo Rossi Osir de São Paulo, o mesmo que realizou os azulejos desenhados por Candido Portinari para o Ministério da Educação Cultura e Saúde no Rio de Janeiro.

Painel em azulejos ‘As Lavadeiras’ de Burle Marx. Fonte: FundacaoSchmidt.org.br

Foi no projeto do MEC que Burle Marx, convidado para realizar os jardins, estreitou amizade com Portinari, e trabalhou pela primeira vez como seu colaborador na realização dos painéis de azulejos. Será a partir deste período de aprendizado que começará a elaborar seus próprios painéis que serão muitas vezes parte integrante dos seus projetos paisagísticos. No IMS sua obra serve como cenário para um jardim aquático cheio de carpas.

Vista do lago de carpas. Fonte: Autor.

Vale uma visita!

Como em outras construções do modernismo carioca, todas as artes estão presente nesse projeto e a releitura de referências históricas como os azulejos e as treliças com elementos modernos, acontece de maneira fluida e elegante. Como disse no início, a casa por si só merece uma visita!

Fachada com os cobogós. Fonte: IMS.

Já andei falando de azulejos nestes posts aqui e aqui. Finalizo com esta obra contemporânea um tema que na realidade não se conclui aqui. Quem sabe mais a frente volte a falar sobre esta arte. Mas agora estou com outras ideias de locais interessantes da nossa Cidade Maravilhosa que quero apresentar para você. Siga nosso blog pois tenho ainda muito a te mostrar!

Tags: , , , , ,
Sou descendente de italianos e sou doutora na Itália em Línguas e Literaturas Estrangeiras. O Rio de Janeiro é uma cidade multifacetada, uma combinação de culturas, paisagens, história e arquitetura. Revelar seus diferentes ângulos é o que me proponho como guia de turismo. Vamos descobri-lo juntos!

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário