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O Ouro Azul. Azulejaria portuguesa no Rio de Janeiro
7 jun 2021

O Ouro Azul. Azulejaria portuguesa no Rio de Janeiro

Post by Monica Bertazzolo

Aqui no Rio de Janeiro há lugares onde as vezes parece que estamos em outra cidade. Como quando, no Centro, estamos na frente do Teatro Municipal. Se nos abstrairmos por um momento, podemos imaginar de estar em Paris. Ou em certas ruas em Santa Teresa. Olhando para os românticos chalés deste bairro, podemos acreditar de estar passeando por algum Cantão da Suíça. Mas se você quiser fazer um mergulho em Lisboa, entre na igreja do Outeiro da Glória. Por lá encontrará uma joia da arte da cerâmica portuguesa em terras cariocas! Amante da azulejaria atenção, pois esta postagem é para você!

O Outeiro da Gloria, um pouco de história

A última batalha que permitirá a expulsão definitiva dos franceses da nossa Baia de Guanabara, por eles ocupada desde 1555, acontecerá em 1567 numa elevação. O morro era então chamado de Uruçumirim. Por isso, este local pode ser considerado o verdadeiro ponto de início da nossa história. Neste outeiro em seguida será construída uma pequena ermida, e em 1714 começará a construção da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, que dará nome ao morro como o conhecemos hoje. 

Pintura da igreja do Outeiro da Glória no morro em frente ao mar.
A igreja do Outeiro da Glória, óleo de Leandro Joaquim 1790. Fonte: diariodorio.com

A planta da igreja é de forma poligonal, constituída por dois octógonos. Forma muito insólita para o barroco que surgirá no Rio de Janeiro. Desde a chegada da Corte Portuguesa em 1808, ela cai no gosto da família real que a elegerá como local de batizados, tradição que será seguida durante o império a ponto que D. Pedro II, em 1839, outorgará à irmandade o título de irmandade imperial. Mas o que torna a igreja tão especial, além do fato que se encontra numa altura com uma visão privilegiada para a Baia, é a decoração interna.

Vista externa da igreja do Outeiro da Glória
Vista externa da igreja do Outeiro da Glória. Fonte: globoplay

Os silhares são revestidos de azulejos portugueses produzidos entre 1735 e 1745 pelo pintor português Valentim de Almeida, no momento áureo da produção azulejar em Portugal. Temos mais de 8.500 peças dispostas em 62 painéis, divididas em três temáticas distintas. No corpo central estão representadas cenas bíblicas, na Sacristia temáticas profanas e no coro alto se encontram retratados personagens bíblicos.

Interior da igreja do Outeiro da Glória, vista de cima. Bancos alinhados em 2 fileiras de frente para o altar.
Interior da igreja do Outeiro da Glória. Fonte: infoglobo.com

A arte azulejar

Se a origem da palavra azulejo ainda é controversa, em contraparte temos outros dados incontestáveis. A entrada dos azulejos em Portugal se dá em 1498, após uma viagem realizada por D. Manuel I, que teria ficado encantado com a beleza da azulejaria encontrada em Sevilha, importando assim esta nova expressão artística para decorar o palácio de Sintra. Esta arte com o passar dos séculos vai se aprimorando, e sua estética também seguirá uma sua evolução.

Inicialmente se produziam azulejos policromos com desenhos simplificados. No início de 1600, com a chegada de lotes de porcelana chinesa importada para a Europa, os tons azul e branco presentes nestas peças caem no gosto dos portugueses, e os azulejos também começam a ser produzidos nesta bicromia. Em Lisboa entre 1700 e 1750, as fabricas contratam mestres de cavalete para produzir ciclos historiados. Este será denominado de “Ciclo dos Mestres”. Os azulejos na igreja da Glória pertencem a este momento fértil da produção portuguesa. As técnicas de prospectiva e de sombreamento que os pintores usavam em suas telas será transportada para a cerâmica criando assim desenhos sempre mais elaborados.

Interior da igreja N. Senhora do Outeiro da Glória. Azulejaria da nave e altar mor.

Voltando a nossa igreja, no primeiro octógono onde se encontra o altar e a nave central, a temática que adorna as paredes é de tipo sagrado. Retrata cenas do Cântico dos Cânticos, presente no Antigo Testamento. O Cântico é uma coletânea de versos que cantam o amor de Salomão pela Sulamita. De acordo com uma leitura mais elevada, representariam o amor de Deus pela sua Igreja. Não temos uma narrativa linear que se sucede, mas painéis que retratam estas tertúlias amorosas.  

Arte feita de azulejos brancos e azuis no interior da igreja
Ciclo de azulejos da nave. Salomão e a Sulamita. Fonte: azulejosantigosrj

Sacristia

Na sacristia não se realizavam cerimonias religiosas. Portanto as temáticas escolhidas para adornar o local foram as cenas cortesãs, que retratam os nobres a passeio em jardins palacianos, ou cenas de caça. A caça ao javali, a lebre e ao cervo são entre os painéis mais interessantes, onde há uma forte teatralidade que envolve as figuras retratadas. Nada é estático, há um movimento que envolve todos os personagens.

Arte feita de azulejos brancos e azuis no interior da igreja
Ciclo de azulejos da Sacrestia. Cenas de caça. Fonte: azulejosantigosrj

Coro Alto

No andar superior o último ciclo. Aqui encontramos representadas 6 figuras masculinas. Inicialmente eles foram identificados como profetas, mas hoje os estudiosos estão concordes em dizer que representam a genealogia de Jesus. Portanto figuras bíblicas.

Arte feita de azulejos brancos e azuis no interior da igreja
Ciclo azulejos do Coro. Genealogia de Jesus. Fonte: oglobo.com

Este ciclo azulejar é uma daquelas joias escondidas do Rio. Escondida não por ser de difícil acesso, mas porque não está incluída no circuito turístico tradicional. No século XVIII havia uma expressão portuguesa usada para comentar algo muito belo que dizia: “é como ouro para o azul”. Uma referência para a beleza criada pela combinação da talha dourada de certas peças  com a azulejaria. Hoje a folha dourada dos altares desta igreja se perdeu, mas o azul segue tendo a luminosidade do lápis-lazúli, que brilha como uma pedra preciosa. Um verdadeiro tesouro que se revela para quem souber olhar!

Se gostou do tema, continue acompanhando o nosso blog, pois coisa boa vem aí. Voltarei a falar de azulejaria em breve. Até lá!

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Sou descendente de italianos e sou doutora na Itália em Línguas e Literaturas Estrangeiras. O Rio de Janeiro é uma cidade multifacetada, uma combinação de culturas, paisagens, história e arquitetura. Revelar seus diferentes ângulos é o que me proponho como guia de turismo. Vamos descobri-lo juntos!

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