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Azulejaria e Modernismo: um casamento perfeito
25 jun 2021

Azulejaria e Modernismo: um casamento perfeito

Post by Monica Bertazzolo

O azulejo, por definição, é uma simples peça, geralmente quadrada, de barro cozido, esmaltado ou vitrificado de um dos lados. A azulejaria se torna com os séculos uma das expressões mais fortes da cultura portuguesa. Já comentei sobre a história da entrada desta forma artística em Portugal neste post aqui. Com o tempo seu uso ultrapassou a função utilitária e acabou atingindo o estatuto de Arte.

Azulejos portugueses Mosteiro de São Bento. Azulejaria: branco, azul e amarelo.
Azulejos portugueses Mosteiro de São Bento (RJ). Fonte: azulejosantigosrj

Aqui no Rio de Janeiro colônia, a azulejaria será introduzida pelos portugueses. Com o passar do tempo esta tradição artística chegará até o século XX. Seu uso vai ser reproposto durante o período do auge da Arquitetura Neocolonial, e o Modernismo, um pouco mais a frente, vai se apropriar desta técnica dando-lhe uma roupagem nova.

MOVIMENTO MODERNISTA

Djanira da Motta e Silva foi uma artista plástica que teve papel importante na transformação da azulejaria brasileira como forma de expressão representativa da estética nacional. Sua obra surge no contexto do movimento modernista. Seu trabalho foi por muito tempo catalogado como naif, como arte “ingênua”, usando linhas e cores simplificadas. Mas no final de sua carreira seu traço ganha força e técnica, levando-a a realizar formas mais geometrizadas, demonstrando uma maturidade que a afasta deste rotulo de arte primitiva. Gradualmente sua obra alcançou sempre maior reconhecimento da crítica. Entre suas obras em arte cerâmica, figura o painel de Santa Bárbara.

O PAINEL DE SANTA BÁRBARA

As circunstâncias desta obra são curiosas e um tanto trágicas. Foi concebida como homenagem aos 18 operários falecidos na construção do homônimo túnel, entre os bairros de Laranjeiras e Catumbi no Rio de Janeiro, por conta de um desabamento. Djanira realizou este painel inspirando-se em Santa Bárbara, santa invocada como protetora por ocasião de tempestades, raios e trovões. Por extensão considerada a padroeira dos artilheiros, dos mineradores e das pessoas que trabalham com fogo. Vale ressaltar que a devoção à ela reafirmou-se entre os trabalhadores do túnel após a ocorrência do acidente.

Construção do Túnel Santa Bárbara RJ
Construção do Túnel Santa Bárbara RJ. Fonte: oglobo.com

E aí vem o fato curioso. Esta obra inaugurada em 1964, foi instalada numa capela alocada no nicho aberto pela explosão, acima do teto do túnel. Se acessava a este espaço sagrado por meio de uma escada de madeira na lateral da pista sentido Catumbi. Na foto que segue, vemos a artista Djanira entrando por uma portinha para assistir a uma função religiosa neste local. Em meados dos anos 1980 o painel foi retirado, por conta da umidade, das infiltrações e da poluição dos veículos, e encaixotado. Desde os anos 1990, após atento restauro foi alocado no MNBA num pátio com acesso restrito.

Djanira entrando na capela no Túnel Santa Bárbara com parede trabalhada em azulejaria
Djanira entrando na capela no Túnel Santa Bárbara. Fonte: funarte.gov.br

O painel de 130 metros quadrados é composto de mais de cinco mil azulejos, em tons de roxo, azul e branco. No centro vemos a figura da Santa vestindo uma túnica. Em uma das mãos carrega um cálice e na outra uma pluma de pavão ou uma palma, símbolo de martírio. Ao seu lado aparece uma torre com três janelas.

Painel Santa Bárbara, feito de azulejo no pátio do MNBA. Azulejaria: branco, roxo e diferentes tons de azul.
Painel Santa Bárbara no pátio do MNBA. Fonte: artenarede.com

O detalhe da torre é uma alusão a história da Santa mártir, que data do III sec. d.C. Foi justo pela abertura da terceira janela nesta torre, por obra de Bárbara como símbolo de sua nova fé, que seu pai Dióscoro, que seguia a religião pagã, descobriu sua conversão ao cristianismo. Ao perceber que a filha estava irredutível em sua fé cristã ele acabou denunciando-a publicamente levando-a ao martírio por não negar a conversão. No painel estão também representadas figuras de operários com britadeiras, uma homenagem de Djanira aos falecidos, junto a anjos com instrumentos musicais. O fundo se apresenta com desenhos abstratos e decorativos.

Painel Santa Barbara, feito de azulejos azuis e brancos com detalhe da santa e da torre. Azulejaria: branco, roxo e diferentes tons de azul.
Painel Santa Barbara, detalhe a santa e a torre. Fonte: oglobo.com

Eis aí a história de um tesouro escondido. Costumo dizer que este painel foi concebido para ser acessível a quem quisesse vê-lo, mas por algum motivo acabou ficando, embora em locais públicos, escondido dos demais. Se você está entre os amantes da arte azulejar, continue seguindo nosso Blog. Ainda tenho muito para contar sobre azulejaria aqui no Rio de Janeiro! Até breve!

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Sou descendente de italianos e sou doutora na Itália em Línguas e Literaturas Estrangeiras. O Rio de Janeiro é uma cidade multifacetada, uma combinação de culturas, paisagens, história e arquitetura. Revelar seus diferentes ângulos é o que me proponho como guia de turismo. Vamos descobri-lo juntos!

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